Pular para o conteúdo
Protocolos
Compostos › Verificado em fonte primária

CRISPR

De 64.641 artigos, 67 são ensaios clínicos e 1 virou medicamento — e o que limita esse medicamento não é a edição do gene, é a quimioterapia em volta dela

Aprovação parcialVerificado em fonte primária

Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.

Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.

A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.

Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.

Atenção específica deste composto: Nada nesta página é aplicável fora de um centro de transplante. O Casgevy não é um produto que se compre, se reconstitua ou se aplique — é colheita de células-tronco, edição em laboratório certificado, quimioterapia mieloablativa e semanas de internação. Qualquer coisa vendida como 'CRISPR' fora desse circuito não é isto. E a edição germinativa hereditária, que é o que costuma aparecer no debate público, não tem relação com nenhuma das terapias aprovadas: todas são somáticas, não são herdáveis e morrem com o paciente.

Resumo

CRISPR entra nesta referência como contraponto, não como protocolo: é o único lugar onde a promessa de engenharia genética virou medicamento aprovado por agência, e ver o preço disso em evidência calibra a leitura de todo o resto do site. A ferramenta tem 14 anos e um produto aprovado, o Casgevy, para doença falciforme e beta-talassemia. Nos dois ensaios de fase 3, a edição funcionou em 100% dos pacientes; 97% ficaram livres de crise vaso-oclusiva e 91% ficaram independentes de transfusão. O que limita a terapia é o condicionamento mieloablativo com bussulfano que precede a infusão — e o número mais duro do levantamento é de fertilidade: das 17 mulheres com mais de um ano de seguimento, 17 tiveram falência ovariana. No Reino Unido, o NICE conta 1.794 elegíveis e projeta 23 tratamentos no primeiro ano. No Brasil não há registro, não há petição de registro e não há nem ensaio clínico: a varredura das 541 petições da Vertex na ANVISA devolveu zero de terapia avançada.

Por que CRISPR está nesta referência

Todo o resto deste site descreve compostos que circulam sem aprovação, com dose vinda de comunidade e frasco de procedência incerta. CRISPR é o contrário disso, e é por isso que vale a página: é o único lugar onde a promessa de reescrever o genoma virou medicamento aprovado por agência reguladora, com ensaio de fase 3, bula e preço.

O que interessa aqui não é a molécula — não há dose, não há reconstituição, não há ciclo. O que interessa é quanto custou, em evidência, sair da promessa e chegar ao paciente. Esse número é a melhor régua disponível para ler o resto desta referência.

A resposta curta: catorze anos, 64.641 artigos, um produto aprovado — e um limite que não é da tecnologia, é da quimioterapia que precisa vir antes dela.

O que é, em termos verificáveis

CRISPR-Cas é um sistema de imunidade adaptativa de bactérias e arqueias. Funciona em três etapas: a bactéria guarda um pedaço do DNA do vírus invasor como “espaçador” no próprio genoma; transcreve esse arquivo em RNAs-guia; e usa uma nuclease Cas dirigida por esse RNA para cortar o invasor quando ele voltar.

O achado que virou ferramenta: em Streptococcus pyogenes, dois RNAs pareados dirigem a Cas9 a cortar as duas fitas do DNA-alvo — o domínio HNH corta a fita complementar, o domínio RuvC-like corta a outra. E o par funciona quando fundido numa única molécula de RNA quimérico. Foi essa fusão que tornou a coisa programável: mudar o alvo passou a ser mudar uma sequência de RNA, não desenhar uma proteína nova.

A parte que quase nunca é contada: a tesoura é precisa, o conserto não é. Quem repara a quebra é a própria célula, e o modo mais comum de reparo gera pequenas inserções e deleções que desligam o gene. Escrever uma sequência nova no lugar é bem menos eficiente. Boa parte dos problemas de segurança mais adiante nesta página vem dessa segunda metade, não da primeira.

Cronologia verificada

Cada linha abaixo foi conferida no PubMed pelo identificador do artigo. Duas coisas que a versão popular da história costuma apagar aparecem aqui: passaram-se 25 anos entre ver e entender — as repetições estavam publicadas desde 1987 e ninguém sabia o que eram — e a demonstração de que aquilo era um sistema imune saiu de uma fabricante de iogurte, resolvendo um problema industrial de fermento morto por bacteriófago.

AnoO que foi estabelecidoPublicação
1987Primeira observação das repetições, em E. coli — num artigo sobre um gene de fosfatase alcalina. Aparecem como curiosidade de sequência, sem função conhecidaIshino, J Bacteriol
2005Três grupos, independentes, descobrem que os espaçadores vêm de vírus e plasmídeos — a pista de que aquilo era defesaMojica, J Mol Evol · Bolotin e Pourcel, Microbiology
2007Demonstração experimental de que CRISPR confere resistência adquirida a vírus. Feito na Danisco, empresa de fermento lácteoBarrangou, Science
2010O sistema cliva DNA de fago e de plasmídeo — o alvo é DNAGarneau, Nature
2011Descoberta do tracrRNA e da maturação do RNA-guiaDeltcheva, Nature
2012Cas9 programável por RNA, e o guia único quimérico. É o artigo do NobelJinek, Science
2012Publicação independente, no mesmo ano, do complexo Cas9-RNA que cliva DNAGasiunas, PNAS
jan/2013Dois artigos no mesmo número da Science levam a Cas9 para célula humana. Taxas de edição de 2% a 25%, conforme o tipo celularCong (Broad) e Mali (Harvard), Science
2015Cas12a: nuclease de RNA único, amplia o repertório de alvosZetsche, Cell
2016Cas13a: efetor cujo alvo é RNA, não DNAAbudayyeh, Science
2016Edição de base: troca uma base por outra sem cortar a dupla-fitaKomor, Nature
2017Editor de base de adenina, completando as quatro transições possíveisGaudelli, Nature
2019Prime editing: escreve sequência nova sem quebra de dupla-fita e sem molde doadorAnzalone, Nature
out/2020Nobel de Química a Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, “pelo desenvolvimento de um método de edição de genomas”Comitê Nobel
nov/2023Primeira aprovação regulatória do mundo de uma terapia CRISPR: a MHRA autoriza o Casgevy no Reino UnidoMHRA

O tamanho real do campo

Busca no PubMed em 4 de setembro de 2026, com o termo no título ou no resumo. O último número da tabela é o que importa para calibrar qualquer manchete sobre CRISPR.

RecorteRegistros
Total64.641
Publicados em 2012139
Publicados em 20151.252
Publicados em 2026 (ano corrente, incompleto)7.738
Termo “base editing”2.251
Termo “prime editing”1.080
CRISPR com tipo de publicação “Clinical Trial”67

Leitura desses números

  • De 64.641 artigos, 67 são ensaios clínicos. São 0,10%. O campo é esmagadoramente pré-clínico — o que não é crítica, é a idade da tecnologia. Mas é o denominador correto.
  • O crescimento é real e recente. De 139 artigos em 2012 para 7.738 só no ano corrente. Volume de publicação, porém, não é volume de evidência clínica: as duas curvas não andam juntas.
  • As duas gerações seguintes já têm literatura própria — 2.251 artigos de edição de base e 1.080 de prime editing. Elas não são refinamento cosmético: existem como resposta direta a um problema de segurança, que está mais abaixo nesta página.

O único produto aprovado

Um só chegou aqui: Casgevy (exagamglogene autotemcel). É terapia celular autóloga não-viral. Colhem-se as células-tronco do sangue do próprio paciente; edita-se fora do corpo, com CRISPR-Cas9, a região que controla o gene BCL11A; e reinfunde-se depois de quimioterapia mieloablativa com bussulfano.

A lógica é indireta e elegante: o BCL11A é o que desliga a hemoglobina fetal depois do nascimento. Desligando o BCL11A, a hemoglobina fetal volta — e compensa a hemoglobina adulta defeituosa. Não se conserta o gene doente; contorna-se ele religando um gene de reserva.

DataAgênciaEscopo
15 de novembro de 2023MHRA (Reino Unido)Primeira autorização do mundo. Falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão, a partir de 12 anos
8 de dezembro de 2023FDA (Estados Unidos)Doença falciforme com crises vaso-oclusivas recorrentes, a partir de 12 anos
16 de janeiro de 2024FDA (Estados Unidos)Segunda indicação
9 de fevereiro de 2024Comissão Europeia / EMAAutorização condicional. Titular: Vertex Pharmaceuticals (Ireland) Limited. Ambas as indicações, a partir de 12 anos, quando o transplante é apropriado e não há doador familiar compatível
1º de julho de 2026FDA (Estados Unidos)Ampliação para 2 anos ou mais
ANVISA (Brasil)Não registrado, e sem pedido de registro. Ver a seção do Brasil, adiante

Os números de eficácia, e o que eles não dizem

Os dois ensaios de fase 3 são de braço único e abertos — não há grupo de comparação. Isso limita a leitura e precisa ser dito antes dos números, não depois.

Doença falciformeBeta-talassemia dependente de transfusão
Pacientes tratados4452
Seguimento mediano19,3 meses (0,8 a 48,1)20,4 meses (2,1 a 48,1)
Enxertia de neutrófilos e plaquetasem todosem todos
Desfecho primáriolivre de crise vaso-oclusiva grave por ≥12 meses seguidos
29 de 30 avaliáveis (97%), IC95% 83–100
independência de transfusão por ≥12 meses
32 de 35 avaliáveis (91%), IC95% 77–98
Desfecho secundáriolivre de internação por crise: 30 de 30 (100%), IC95% 88–100hemoglobina total média 13,1 g/dL; hemoglobina fetal média 11,9 g/dL, presente em ≥94% das hemácias
Mortes / cânceresnenhum câncernenhuma morte, nenhum câncer

O gargalo não é o CRISPR — é o bussulfano

Esta é a parte mais importante da página, e a que menos aparece nas manchetes.

A edição funcionou em 100% dos pacientes. Nos dois ensaios, todos enxertaram. O que limita o alcance da terapia não é a etapa de edição: é o transplante autólogo em volta dela. Os eventos adversos mais frequentes que a FDA lista são mucosite e febre neutropênica — quimioterapia, não edição genômica. A rotulagem traz ainda advertência para falha de enxertia de neutrófilos e para edição fora do alvo.

Quem recebe Casgevy passa por um transplante autólogo completo, com toda a morbidade de um. É isso que separa “cura funcional” de “cura”.

E há um custo que não aparece em nenhuma tabela de eficácia. O bussulfano é gonadotóxico — isso não é efeito adverso raro, é o fármaco funcionando como esperado. Numa experiência de centro único com 40 pacientes submetidos a terapia gênica:

AchadoNúmero
Mulheres com captação de oócitos bem-sucedidatodas as 23, mediana de 1,3 a 1,4 ciclos
Trombose durante estimulação ovariana (7 tinham histórico de evento trombótico)nenhuma, todas com profilaxia anticoagulante
Frascos de sêmen criopreservados, mediana2 na falciforme contra 6 na talassemia
Concentração de espermatozoides, mediana7,1 milhões/mL na falciforme contra 80,4 milhões/mL na talassemia
Mulheres com mais de 1 ano de seguimento que apresentaram falência ovariana, com hormônio antimülleriano indetectável17 de 17

Dezessete de dezessete

  • Esse número precisa ser dito com o mesmo destaque que os 97%. Uma paciente jovem que aceita o Casgevy está, na evidência publicada até aqui, trocando as crises vaso-oclusivas por falência ovariana.
  • A menos que passe antes por preservação de fertilidade — que é mais um procedimento, mais custo, mais tempo e mais um serviço especializado que precisa existir na cidade dela. Os autores concluem exatamente isso: preservação é segura, factível e deve ser considerada antes.
  • A doença falciforme já compromete a fertilidade masculina antes de qualquer tratamento. A mediana de 2 frascos contra 6, e de 7,1 milhões/mL contra 80,4, é diferença entre as duas doenças, não efeito da terapia. Quem chega para a colheita já chega com menos.

Por que existem edição de base e prime editing

Entre 2018 e 2021, uma série de resultados corrigiu o otimismo da primeira fase. Todos abaixo foram conferidos no PubMed.

AnoAchadoPublicação
2018O reparo das quebras gera, além de indels pequenos, deleções de milhares de bases e rearranjos complexos — e esses eventos escapam da genotipagem por PCR curta. Parte do dano não era vista porque não se olhava longe o bastanteKosicki, Nat Biotechnol
2018A edição por Cas9 dispara resposta de dano ao DNA mediada por p53, o que reduz a eficiênciaHaapaniemi, Nat Med
2018Em células-tronco pluripotentes humanas, o p53 inibe a edição — o que implica que as células que editam melhor podem ser as com p53 comprometido. Risco oncogênico embutido na própria seleçãoIhry, Nat Med
2021A edição pode causar cromotripse — fragmentação e remontagem caótica de um cromossomo inteiro — como consequência no alvo certo, não fora deleLeibowitz, Nat Genet

A lógica que liga os quatro

O problema central de segurança da nuclease CRISPR não é “a tesoura errar de lugar”. É que cortar a dupla-fita no lugar certo já é, por si, um evento genotóxico. Melhorar a pontaria do guia não resolve.

É exatamente por isso que a edição de base (2016) e o prime editing (2019) existem: os dois foram desenhados para editar sem quebrar a dupla-fita. Não são melhoria de conveniência — são resposta de engenharia a este bloco de literatura.

E a pergunta sobre câncer secundário ainda não tem resposta. Nenhum ensaio citado aqui tem seguimento longo o bastante para excluí-lo. Os próprios estudos de acompanhamento declaram o prazo: o de longo prazo do Casgevy tem conclusão primária prevista para 2039; o de um concorrente, para 2040. Até lá, “nenhum câncer ocorreu” significa “nenhum câncer em até 48 meses”, e nada além disso.

O que mudou em 2026: saiu do transplante e entrou na veia

O Casgevy edita células fora do corpo. A geração seguinte edita dentro — nanopartícula lipídica que carrega o RNA mensageiro da Cas9 e o guia até o fígado, por infusão intravenosa. Sem colheita de célula, sem quimioterapia, sem transplante.

E essa geração já tem fase 3 controlada por placebo, o que o Casgevy nunca teve.

Produto e alvoEstudoResultado verificado
Lonvoguran ziclumeran — angioedema hereditárioFase 3, duplo-cego, randomizado 2:1, 80 pacientes (52 tratados, 28 placebo), dose única de 50 mgTaxa mensal de crises entre as semanas 5 e 28: 0,26 contra 2,10 no placebo. Diferença relativa de −87% (IC95% −93 a −78), p<0,001
Nexiguran ziclumeran — amiloidose por transtirretinaFase 1, 36 pacientes com cardiomiopatia, ≥12 meses de seguimentoRedução média da proteína-alvo no sangue: −89% em 28 dias e −90% em 12 meses. 5 reações à infusão e 2 elevações transitórias de enzimas hepáticas
NTLA-2002 — angioedema hereditárioFase 2 randomizada, 27 pacientesRedução de 75% e 77% na taxa de crises contra placebo. Livres de crise sem tratamento adicional: 40% e 73%
Edição de base sob medida — deficiência de CPS1Relato de caso, n=1, 7 semanas de seguimentoRecém-nascido com doença de ~50% de letalidade na primeira infância. Terapia desenhada e fabricada para a variante dele, duas infusões aos ~7 e ~8 meses. Passou a tolerar mais proteína na dieta com metade da dose do sequestrante de nitrogênio. Nenhum evento adverso grave

O caso do lactente, lido pelo que ele é

  • Não é demonstração de eficácia. É n=1, com sete semanas de acompanhamento, e os próprios autores escrevem que seguimento mais longo é necessário.
  • O que ele demonstra é logístico e regulatório: um medicamento de edição genômica desenhado para uma única pessoa foi fabricado, aprovado e infundido em meses. Esse é o precedente.
  • Se isso se repetir, o modelo de “um medicamento, um ensaio, uma população” deixa de descrever o campo. E, com ele, deixa de valer a lógica de evidência que este site usa para julgar todo o resto.

O cemitério

Levantamento no ClinicalTrials.gov em 4 de setembro de 2026: 119 estudos registrados com CRISPR como intervenção. Uma amostra de 60 foi examinada registro a registro. O padrão que aparece não é aleatório.

ProdutoPatrocinadorSituação
CTX110 — anti-CD19 alogênicoCRISPR TherapeuticsEncerrado, 93 pacientes
CTX120 — anti-BCMACRISPR TherapeuticsEncerrado, 26 pacientes
CTX130 — anti-CD70CRISPR TherapeuticsEncerrado, 49 pacientes
CB-012 — leucemia mieloide agudaCaribou BiosciencesEncerrado, 12 pacientes
NYCE T cellsUniversidade da PensilvâniaEncerrado, 3 pacientes
PACE CART19Universidade da PensilvâniaRetirado, nenhum paciente
CheckCell-2Intima BioscienceRetirado, nenhum paciente
EDIT-101 — primeiro CRISPR aplicado dentro do olho humanoEditas MedicineSituação desconhecida, 34 pacientes

O que o cemitério mostra

  • Um bloco inteiro de terapia celular alogênica editada por CRISPR foi descontinuado. Não é acaso estatístico: é a área onde a promessa de “célula de prateleira” bateu na rejeição imunológica e na persistência celular curta.
  • O que segue vivo tem outro perfil: doenças monogênicas com alvo único e bem definido, e edição no fígado por nanopartícula. Fase 3 em andamento para amiloidose por transtirretina e para angioedema hereditário.
  • A fronteira nova é a mais arriscada. Já há ensaio registrado em 2026 de edição in vivo do gene da angiotensinogênio para tratar hipertensão — doença comum, crônica, com dezenas de tratamentos baratos existentes. Uma edição genômica permanente para uma condição que se controla com comprimido diário muda inteiramente o cálculo de risco aceitável.

Preço e acesso: o gargalo declarado não é o dinheiro

O Casgevy tem preço de lista de £1.651.000 por tratamento no Reino Unido — o mesmo nas duas indicações, com desconto ao serviço público cujo tamanho é sigilo comercial declarado — e de US$ 2,2 milhões nos Estados Unidos. Antes da aprovação, o instituto americano de avaliação de tecnologias em saúde havia calculado um teto de US$ 1,35 a 2,05 milhões. O preço saiu acima do topo dessa faixa.

Mas o número que realmente explica o acesso não é esse. Quando o NICE, na Inglaterra, projeta quantas pessoas serão tratadas, ele não cita custo como motivo da adesão baixa. Cita “a internação hospitalar longa necessária para o processo envolvido”.

Esta seção é um resumo. O levantamento inteiro — quem paga, sob que condições, o comparador mais barato que ganha em 100% das simulações, o que o Brasil sabe e o que não sabe sobre a própria população de pacientes — está em Casgevy — preço e acesso.

EtapaEfeito
População com doença falciforme
Têm um dos três genótipos elegíveis~70%
Desses, tiveram ≥2 crises por ano nos 2 anos anteriores48%
Desses, estão aptos ao procedimento54%
Desses, não têm doador familiar compatível85%
= pessoas elegíveis1.794
Concluem o tratamento no 1º ano23
Concluem o tratamento no ano de pico78 por ano

Três coisas que esse funil revela

  • O Casgevy não é alternativa ao transplante — é o que sobra para quem não achou doador. A própria autorização exige que o transplante seja apropriado e que não haja doador familiar compatível. A indicação foi desenhada dentro do nicho que o transplante deixou vazio.
  • E existe um comparador mais barato que ganha em 100% das simulações. Análise de custo-efetividade publicada em 2026 comparou padrão de cuidado, transplante haploidêntico e terapia gênica: o padrão rende 14,3 anos de vida ajustados por qualidade a US$ 1,22 milhão; o transplante haploidêntico rende 20,1 a US$ 1,15 milhão; a terapia gênica rende 22,1 a US$ 2,75 milhões. O haploidêntico venceu a terapia gênica em 10.000 de 10.000 iterações de Monte Carlo. A terapia gênica é clinicamente melhor e economicamente perdedora — e o haploidêntico é justamente a técnica que dispensa compatibilidade total, ou seja, ataca o nicho da indicação por dentro.
  • A distância entre onde estão os pacientes e onde está a terapia é de ordem de grandeza. Nascem 515.000 bebês por ano com doença falciforme no mundo, majoritariamente na África subsaariana e no Caribe; são 7,74 milhões de pessoas vivendo com a doença e uma carga de mortalidade de 376.000 mortes por ano, das quais 81.100 em menores de 5 anos. O mesmo estudo de custo-efetividade estimou o teto de preço custo-efetivo da terapia gênica na Nigéria, na Índia e na Tanzânia em US$ 4.200 a US$ 22.000. O preço de lista é 520 vezes o piso dessa faixa. Nenhum desconto confidencial fecha isso.

No Brasil: não é fila lenta, é fila não iniciada

Consulta em 4 de setembro de 2026 à base pública de petições da ANVISA — o sistema “Situação de Documentos” de consultas.anvisa.gov.br, que permite filtrar por CNPJ e por código de assunto.

Terapia gênica e celular não entra no cadastro de medicamentos: é Produto de Terapia Avançada (PTA), com registro separado, sob a RDC 505 de 2021. Buscar “exagamglogene” na base aberta de medicamentos devolve zero — e isso não significa nada, porque é a base errada.

Código de assuntoO que éPetições
11586Registro de PTA Classe I1 — e é de “EMPRESA DE TESTE LTDA. (VS01)”, registro de teste do próprio sistema
11587Registro de PTA Classe II11
11614Registro de PTA Classe I com dados e provas adicionais0
11615Registro de PTA Classe II com dados e provas adicionais1
Universo real, em toda a história da Agência12 petições, de 9 empresas

A varredura que fecha a pergunta

As 12 petições são de Novartis (3, deferidas), Gilead (2, deferidas), PTC, Janssen, Roche, BioMarin (cancelada), Bristol-Myers Squibb, Ferring e Ultragenyx — estas três últimas ainda em análise. Nenhuma é da Vertex, detentora do Casgevy.

Para eliminar a hipótese de a petição estar sob outro assunto, a varredura foi refeita por CNPJ. A Vertex Farmacêutica do Brasil Ltda. — identificada pelo CNPJ que consta como detentora dos registros de Trikafta, Symdeko, Orkambi e Kalydeco, todos medicamentos de fibrose cística — tem 541 petições no sistema da ANVISA.

RecortePetições
Total no sistema da ANVISA541
Com assunto de Produto de Terapia Avançada0
De terapia gênica, celular avançada ou engenharia tecidual0
De ensaio clínico com produto de terapia avançada0

O que isso significa, e o que não significa

  • Não existe pedido de registro do Casgevy no Brasil. E não existe nem pedido de ensaio clínico, nem uso compassivo, nem acesso expandido. Não é caso de “está na fila e demora”: não entrou na fila.
  • As fontes em português que afirmam aprovação da ANVISA “no início de 2024” estão erradas. Agora dá para dizer isso por evidência positiva, não por ausência de prova.
  • Sem registro, o SUS não pode nem avaliar. O Decreto 7.646/2011, no artigo 15, exige que o pedido de incorporação instrua o processo com o número e a validade do registro na ANVISA. O debate brasileiro sobre preço do Casgevy não está travado no preço — está travado três degraus antes.
  • E, se um dia destravar, avaliaremos no escuro. A melhor estimativa oficial de quantas pessoas têm doença falciforme no Brasil é de 2007 e varia entre 25 mil e 50 mil. O protocolo clínico do Ministério da Saúde de 2024 diz textualmente que “dados recentes não foram identificados”. O Reino Unido publicou 1.794 elegíveis com o funil inteiro aberto; aqui não há denominador.
  • O que não foi verificado: se alguma petição foi protocolada por outra pessoa jurídica em nome do produto. A consulta é por CNPJ e por assunto, e a interface pública não devolve nome comercial. A busca textual por “exagamglogene” exigiria a Pesquisa Pública do SEI, que pede CAPTCHA e não foi usada.

Uma distinção que o debate público perde

Tudo nesta página é edição somática: altera células do próprio paciente, não é herdável, morre com ele. É o que está aprovado, o que está em ensaio e o que tem preço.

O que costuma dominar a conversa sobre CRISPR é outra coisa — a edição germinativa hereditária, que altera o genoma transmitido aos descendentes. Em 2018 um pesquisador chinês anunciou o nascimento de gêmeas cujos embriões haviam sido editados, episódio que gerou literatura acadêmica própria e levou a Organização Mundial da Saúde a publicar, em julho de 2021, um marco de governança e um conjunto de recomendações em nove áreas, resultado de mais de dois anos de consulta global.

São regimes éticos e legais completamente distintos. Confundir os dois é a principal fonte de ruído no debate — e faz parecer que a terapia aprovada carrega um problema moral que ela não tem.

O que esta página ensina para o resto do site

  • Quatorze anos, 64.641 artigos, 67 ensaios clínicos, 1 produto aprovado. Essa é a escala real de uma tecnologia que funcionou. Qualquer composto desta referência que prometa efeito comparável com uma fração dessa evidência está prometendo a partir do nada.
  • A evidência que convence uma agência é de outra ordem. Dois ensaios de fase 3, 96 pacientes somados, seguimento de até 48 meses, enxertia documentada em todos, e ainda assim a aprovação europeia saiu condicional e o Reino Unido só liberou com coleta de dados continuada. Compare com “doses relatadas por usuários em fórum”.
  • O efeito adverso mais grave costuma vir do procedimento, não da molécula. Aqui é o bussulfano, não o CRISPR. Vale como lente para ler qualquer relato de dano: a pergunta é sempre o que mais estava sendo feito ao mesmo tempo.
  • “Nenhum evento adverso grave” tem prazo de validade. Os estudos de longo prazo desta terapia terminam em 2039 e 2040. Um composto que existe há três anos e “não deu problema em ninguém” não disse absolutamente nada.
  • E aprovação em outro país não é aprovação aqui. Três agências aprovaram o Casgevy. No Brasil não há registro, não há petição, não há ensaio. A distância entre “existe no mundo” e “existe legalmente para você” é exatamente o assunto do resto desta referência.

Referências

Esta página não veio da fonte secundária. Cada número foi levantado por mim nas fontes listadas abaixo, em 4 de setembro de 2026, e a consulta usada está declarada acima.
  1. Jinek M et al., 2012 — uma endonuclease de DNA programável por RNA duplo na imunidade bacteriana adaptativa. É o artigo do Nobel. Science 337(6096):816-821.
  2. Ishino Y et al., 1987 — sequência do gene iap em E. coli. Primeira observação publicada das repetições, sem função conhecida. J Bacteriol 169(12):5429-5433.
  3. Mojica FJM et al., 2005 — as sequências intercalares derivam de elementos genéticos externos. J Mol Evol 60(2):174-182.
  4. Barrangou R et al., 2007 — CRISPR confere resistência adquirida contra vírus em procariotos. Trabalho feito na Danisco. Science 315(5819):1709-1712.
  5. Deltcheva E et al., 2011 — maturação do RNA CRISPR por RNA pequeno codificado em trans e RNase III do hospedeiro. Nature 471(7340):602-607.
  6. Cong L et al., 2013 — engenharia genômica múltipla usando sistemas CRISPR/Cas. Science 339(6121):819-823.
  7. Mali P et al., 2013 — engenharia do genoma humano guiada por RNA via Cas9. Publicado no mesmo número. Science 339(6121):823-826.
  8. Komor AC et al., 2016 — edição programável de uma base no DNA genômico sem clivagem da dupla-fita. Nature 533(7603):420-424.
  9. Gaudelli NM et al., 2017 — edição programável de base A•T para G•C sem clivagem do DNA. Nature 551(7681):464-471.
  10. Anzalone AV et al., 2019 — prime editing: edição de genoma por busca e substituição, sem quebras de dupla-fita nem DNA doador. Nature 576(7785):149-157.
  11. Frangoul H et al., 2024 — exagamglogene autotemcel para doença falciforme grave. Fase 3, 44 pacientes. N Engl J Med 390(18):1649-1662.
  12. Locatelli F et al., 2024 — exagamglogene autotemcel para beta-talassemia dependente de transfusão. Fase 3, 52 pacientes. N Engl J Med 390(18):1663-1676.
  13. Frangoul H et al., 2021 — edição CRISPR-Cas9 para doença falciforme e beta-talassemia. Os dois primeiros pacientes. N Engl J Med 384(3):252-260.
  14. Kosicki M et al., 2018 — o reparo das quebras induzidas por CRISPR-Cas9 leva a deleções grandes e rearranjos complexos. Nat Biotechnol 36(8):765-771.
  15. Haapaniemi E et al., 2018 — a edição por CRISPR-Cas9 induz resposta de dano ao DNA mediada por p53. Nat Med 24(7):927-930.
  16. Ihry RJ et al., 2018 — o p53 inibe a engenharia por CRISPR-Cas9 em células-tronco pluripotentes humanas. Nat Med 24(7):939-946.
  17. Leibowitz ML et al., 2021 — cromotripse como consequência no alvo da edição por CRISPR-Cas9. Nat Genet 53(6):895-905.
  18. Cohn DM et al., 2026 — lonvoguran ziclumeran: edição CRISPR in vivo no angioedema hereditário. Fase 3 controlada por placebo, 80 pacientes. N Engl J Med.
  19. Cohn DM et al., 2025 — terapia baseada em CRISPR para angioedema hereditário. Fase 2 randomizada, 27 pacientes. N Engl J Med 392(5):458-467.
  20. Gillmore JD et al., 2021 — edição gênica CRISPR-Cas9 in vivo para amiloidose por transtirretina. Primeiro ensaio in vivo publicado. N Engl J Med 385(6):493-502.
  21. Fontana M et al., 2024 — nexiguran ziclumeran na cardiomiopatia por amiloidose ATTR. Fase 1, 36 pacientes. N Engl J Med 391(23):2231-2241.
  22. Musunuru K et al., 2025 — edição gênica in vivo específica para um paciente, no tratamento de uma doença genética rara. Relato de caso, n=1. N Engl J Med 392(22):2235-2243.
  23. Hmaidan S et al., 2025 — segurança, viabilidade e desfechos de preservação de fertilidade em pacientes com doença falciforme e beta-talassemia submetidos a terapia gênica. 40 pacientes. Transplant Cell Ther.
  24. Chetlapalli K et al., 2026 — transplante haploidêntico, terapia gênica e padrão de cuidado na doença falciforme: análise de custo-efetividade. Blood.
  25. GBD 2021 Sickle Cell Disease Collaborators, 2023 — prevalência global, regional e nacional e carga de mortalidade da doença falciforme, 2000-2021. Lancet Haematol 10(8):e585-e599.
  26. MHRA — autorização mundial inédita de terapia gênica para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão, 15 de novembro de 2023.
  27. FDA — página do produto CASGEVY, com as datas de aprovação e de cada suplemento.
  28. FDA — aprovação da primeira terapia gênica para crianças pequenas com doença falciforme, 1º de julho de 2026.
  29. EMA — relatório público de avaliação do Casgevy, com a data e o tipo da autorização europeia.
  30. NICE — orientação TA1044, exagamglogene autotemcel para doença falciforme grave. Traz o preço de lista, o sigilo do desconto e o funil de elegibilidade.
  31. NICE — orientação TA1003, exagamglogene autotemcel para beta-talassemia dependente de transfusão.
  32. OMS — recomendações sobre edição do genoma humano, publicadas em 12 de julho de 2021.
  33. Greely HT, 2019 — bebês editados: edição germinativa do genoma humano no caso He Jiankui. J Law Biosci 6(1):111-183.
  34. Decreto nº 7.646, de 21 de dezembro de 2011 — artigo 15: o pedido de incorporação ao SUS exige o número e a validade do registro na ANVISA.
  35. CONITEC — Relatório de Recomendação nº 924, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme, 2024. Fonte da epidemiologia brasileira citada.
  36. ANVISA — base pública de petições, sistema “Situação de Documentos”. Consultas por código de assunto (11586, 11587, 11614, 11615) e por CNPJ, feitas em 4 de setembro de 2026.

← Voltar para todos os compostos