Casgevy
O gargalo declarado não é o preço — na Inglaterra são 1.794 elegíveis e 23 tratamentos no primeiro ano, e o motivo que o avaliador escreve é a internação, não o custo
Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.
Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.
A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.
Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.
Resumo
Segunda metade da página de CRISPR: o que acontece depois da aprovação. O Casgevy custa £1.651.000 de lista no Reino Unido, com desconto ao serviço público cujo tamanho é sigilo comercial declarado, e US$ 2,2 milhões nos Estados Unidos — acima do teto de US$ 1,35 a 2,05 milhões que o avaliador independente havia calculado antes da aprovação. Mas o que limita o acesso é outra coisa: o NICE conta 1.794 pessoas elegíveis na Inglaterra e projeta 23 tratamentos concluídos no primeiro ano, e o motivo que ele registra é a internação hospitalar longa. Uma análise de custo-efetividade de 2026 mostrou que o transplante haploidêntico vence a terapia gênica em 10.000 de 10.000 simulações. Nascem 515.000 bebês por ano com doença falciforme, majoritariamente na África subsaariana e no Caribe, e o teto custo-efetivo estimado na Nigéria é de US$ 4.200 — 520 vezes menos que o preço. No Brasil não há registro, não há petição e não há ensaio clínico.
O que esta página responde
A página de CRISPR mostra que a tecnologia funcionou: a edição pegou em 100% dos pacientes nos dois ensaios de fase 3, e 97% ficaram livres de crise vaso-oclusiva. Esta página começa onde aquela para. Funcionar e chegar são coisas diferentes, e a distância entre as duas é o assunto daqui.
O resultado curto, e ele não é o que se espera: o gargalo declarado não é o preço. Quando o avaliador britânico explica por que projeta adesão baixa, ele não cita custo. Cita a internação.
O preço, nas duas moedas em que ele é público
O preço britânico está declarado em texto idêntico nas duas orientações do NICE — a da beta-talassemia, publicada em 11 de setembro de 2024, e a da doença falciforme, publicada em 26 de fevereiro de 2025.
| Mercado | Preço de lista | O que se sabe do preço real |
|---|---|---|
| Reino Unido | £1.651.000 por curso de tratamento, dose única — o mesmo nas duas indicações | A empresa tem acordo comercial que dá desconto ao NHS. O tamanho do desconto é sigilo comercial, declarado como tal pelo próprio NICE |
| Estados Unidos | US$ 2,2 milhões (preço de tabela, wholesale acquisition cost) | Preço antes de descontos e reembolsos. O concorrente lentiviral, lovotibeglogene autotemcel, está em US$ 3,1 milhões |
| Brasil | não existe | Sem registro e sem pedido de registro. Ver a seção do Brasil, adiante |
O preço foi fixado acima do teto que o avaliador independente calculou
Antes da aprovação pela FDA e antes de qualquer preço anunciado, o instituto americano de avaliação de tecnologias em saúde publicou uma faixa de referência para o exa-cel e para o concorrente: US$ 1,35 a 2,05 milhões. É a faixa que o instituto descreve como o maior preço que um fabricante deveria cobrar antes que o custo passe a causar perda de saúde desproporcional em outros pacientes do mesmo sistema.
O preço saiu em US$ 2,2 milhões — acima do topo dessa faixa.
A ressalva importa: a faixa foi calculada antes do preço existir. É a comparação de uma estimativa prévia com um número posterior, não um julgamento do instituto sobre o preço final.
O funil de elegibilidade, com cada porcentagem exposta
O NICE publica a conta inteira. Vale seguir passo a passo, porque é aqui que “aprovado para doença falciforme” vira 78 pessoas por ano.
| Filtro | Proporção que passa |
|---|---|
| Têm genótipo βS/βS, βS/β+ ou βS/β0 | ~70% |
| Desses, tiveram ≥2 crises vaso-oclusivas por ano nos 2 anos anteriores | 48% |
| Desses, estão aptos ao procedimento | 54% |
| Desses, não têm doador aparentado com compatibilidade HLA | 85% |
| = pessoas elegíveis (2025-26) | 1.794, crescendo para 1.882 em 2029-30 |
E do elegível para o tratado
A tabela seguinte é do mesmo relatório. A última linha é a que importa.
| 2025-26 | 2026-27 | 2027-28 | 2028-29 | 2029-30 | |
|---|---|---|---|---|---|
| Selecionados para tratar (intenção de tratar) | 29 | 72 | 90 | 96 | 96 |
| Proporção que conclui o tratamento | 81% | 81% | 81% | 81% | 81% |
| Concluem o tratamento | 23 | 58 | 73 | 78 | 78 |
O motivo que o NICE dá, e que ninguém repete
- Ele não cita preço. A justificativa registrada para a adesão baixa é que “uma internação hospitalar longa é necessária para o processo envolvido”. O produto está pago, aprovado e disponível — e ainda assim são 23 pessoas no primeiro ano, de 1.794 elegíveis.
- Na beta-talassemia o quadro é o mesmo, em escala menor. São 475 elegíveis na prática atual, chegando a 498 em 2028-29, com participação de mercado projetada de 3% no primeiro ano subindo a 11% em cinco anos: 14 pessoas tratadas no primeiro ano, 10 por ano depois.
- Repare no filtro do doador. A autorização exige que o transplante seja apropriado e que não haja doador aparentado compatível. O Casgevy não é alternativa ao transplante: é o que se oferece a quem já era candidato e não achou doador. A indicação foi desenhada dentro do nicho que o transplante deixou vazio — e isso volta a importar duas seções adiante.
Reino Unido: “acesso gerenciado” é uma forma educada de dizer que ainda não se sabe
Nas duas indicações, o NICE não recomendou para uso de rotina no NHS. Recomendou com acesso gerenciado — regime provisório de coleta de dados enquanto a incerteza não se resolve. A expressão que ele usa para as estimativas de custo-efetividade é “altamente incertas”.
Na beta-talassemia a formulação é direta: algumas das estimativas mais prováveis estão acima do que o NICE normalmente considera uso aceitável de recursos do NHS, mesmo levando em conta o impacto sobre desigualdades em saúde. Por isso, não recomendado para rotina.
Na doença falciforme, o NICE aceitou explicitamente mais incerteza e uma estimativa de custo-efetividade mais alta do que normalmente aceitaria, e nomeia os três motivos: as desigualdades em saúde enfrentadas por pessoas com a doença, o caráter inovador da tecnologia, e benefícios não capturados na qualidade de vida dos cuidadores.
Em termos frios: o NHS pagou um prêmio de equidade e escreveu isso. Reconheceu que a população com doença falciforme é sistematicamente desassistida e ajustou o limiar por causa disso. É uma decisão defensável e explícita — e é também o reconhecimento formal de que, pelo critério econômico puro, o produto não passava.
As incertezas que ele lista nas duas orientações são de fundo, não de detalhe: estrutura do modelo, desfechos de sobrevida e qualidade de vida, quanto tempo dura o efeito do tratamento, com que frequência as pessoas desistem antes da infusão, e a frequência de complicações.
Estados Unidos: um modelo federal desenhado para este problema
A doença falciforme, nos Estados Unidos, é desproporcionalmente uma doença de população coberta pelo Medicaid — seguro público, orçamento estadual. Um preço de US$ 2,2 milhões cai sobre orçamentos que não têm como absorvê-lo.
A resposta foi criar um modelo em que o próprio governo federal negocia acordos baseados em desfecho com os fabricantes, em nome dos estados: os estados participantes recebem descontos e reembolsos garantidos caso a terapia não entregue o benefício prometido.
Em anúncio de 15 de julho de 2025: 33 estados, mais o Distrito de Colúmbia e Porto Rico, aderiram. O órgão federal afirma que 84% dos beneficiários do Medicaid com doença falciforme residem em estados participantes.
Mas há a conta, e ela é dura. Análise da perspectiva do Medicaid do Colorado, com dados reais de 2018 a 2023:
| Medida | Valor |
|---|---|
| Custo médio anual do padrão de cuidado para falciforme grave (138 pacientes) | US$ 45.941 por ano (desvio-padrão US$ 59.653) |
| Saldo cumulativo em 6 anos de contrato, com preço de lista, comparado ao padrão de cuidado — exa-cel | −US$ 2,11 milhões por paciente |
| O mesmo, para o concorrente lentiviral | −US$ 3,00 milhões por paciente |
O que essa conta significa
- Dentro do horizonte de um contrato de pagador, a terapia não se paga. O padrão de cuidado custa cerca de US$ 46 mil por ano; a terapia custa o equivalente a 48 anos desse padrão, adiantados de uma vez.
- E quem adianta não é necessariamente quem colhe. Qualquer argumento de “economiza a longo prazo” tem que atravessar essa lacuna de caixa — e, nos Estados Unidos, pacientes trocam de plano. O pagador que financia a cura pode não ser o que deixa de pagar as internações evitadas.
O comparador que a discussão evitou
Esta é a peça mais dura do levantamento, e é de 2026. Uma análise de custo-efetividade publicada em Blood comparou três estratégias em adultos e crianças com doença falciforme: padrão de cuidado, transplante alogênico haploidêntico com condicionamento não-mieloablativo — aquele em que o doador é meio-compatível, um pai, uma mãe, um irmão — e terapia gênica.
| Estratégia | Anos de vida ajustados por qualidade | Custo |
|---|---|---|
| Padrão de cuidado | 14,3 | US$ 1,22 milhão |
| Transplante haploidêntico | 20,1 | US$ 1,15 milhão |
| Terapia gênica | 22,1 | US$ 2,75 milhões |
| Resultado da comparação | O transplante haploidêntico foi a estratégia custo-efetiva contra a terapia gênica em 100% de 10.000 iterações de Monte Carlo, no caso-base e em todas as análises de cenário | |
| Preço máximo custo-efetivo da terapia gênica contra o padrão de cuidado | US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos | US$ 4.200 a US$ 22.000 na Índia, Nigéria e Tanzânia, conforme o limiar de disposição a pagar |
Três leituras, com o cuidado que o dado exige
- A terapia gênica ganha em anos de vida ajustados por qualidade — 22,1 contra 20,1. O transplante haploidêntico não é clinicamente melhor. É mais barato o suficiente para vencer a comparação econômica com folga esmagadora.
- E ele ataca justamente o nicho da indicação. O Casgevy é aprovado para quem não tem doador aparentado com compatibilidade HLA — e o haploidêntico é exatamente a técnica que dispensa compatibilidade total. Se ele amadurecer como opção de rotina, a indicação do Casgevy encolhe por dentro.
- US$ 4.200 na Nigéria. O preço de lista americano é 520 vezes esse teto. Não é questão de negociar desconto: é diferença de ordem de grandeza que nenhum acordo comercial fecha.
Onde estão os pacientes, e onde está a terapia
Estudo de Carga Global de Doença, 204 países e territórios, série de 2000 a 2021.
| Medida | Valor |
|---|---|
| Nascimentos de bebês com a doença, por ano | 515.000 (425.000–614.000) — alta de 13,7% desde 2000, puxada pelo crescimento populacional no Caribe e na África subsaariana ocidental e central |
| Pessoas vivendo com a doença | 7,74 milhões (6,51–9,2) — alta de 41,4% desde 2000 |
| Mortes atribuídas por causa específica | 34.400 (25.000–45.200) |
| Carga total de mortalidade atribuível | 376.000 (303.000–467.000) — quase 11 vezes a contagem por causa específica |
| Mortes em menores de 5 anos | 81.100 (58.800–108.000) |
| Posição entre todas as causas de morte estimadas | sobe da 40ª para a 12ª quando se conta a carga total em vez da causa específica |
As duas metades, lado a lado
- 515.000 nascimentos por ano, majoritariamente na África subsaariana e no Caribe.
- 78 pessoas por ano tratadas na Inglaterra, no cenário de pico projetado pelo NICE.
- Teto custo-efetivo estimado na Nigéria: US$ 4.200. Preço de lista: US$ 2,2 milhões.
- A doença falciforme é, por origem evolutiva, uma doença de populações de regiões com malária endêmica. A primeira terapia CRISPR do mundo foi aprovada para ela — e o preço foi fixado num patamar que exclui, por construção, os países onde nasce a esmagadora maioria dos pacientes. Não é acidente de mercado: é o resultado previsível do modelo de desenvolvimento.
Existe proposta técnica para mudar isso
Uma força-tarefa multidisciplinar publicou na Nature, em 2024, um roteiro para medicamentos genéticos acessíveis. A proposta central é uma estrutura de precificação que, segundo os autores, poderia reduzir o custo por paciente em dez vezes, somada a um modelo de negócio que distribui responsabilidades entre fontes de financiamento diversas, provisões de licenciamento acadêmico, inovação de manufatura e regulação de apoio.
O argumento de fundo é factual e verificável: todas as terapias celulares e gênicas aprovadas nasceram em instituições acadêmicas ou governamentais. A dependência de empresas com fins lucrativos para o desenvolvimento posterior é o que produz preços calibrados para recuperar investimento, pagar pelos candidatos que falharam e atender expectativas de acionistas — e é isso, não o custo de fabricação, que os autores identificam como origem do patamar de preço da categoria.
O preço que não é cobrado em dinheiro
Está detalhado na página de CRISPR, mas precisa ser lembrado aqui, porque é parte do custo de acesso e não aparece em nenhuma tabela de preço.
O condicionamento com bussulfano é gonadotóxico. Numa experiência de centro único com 40 pacientes submetidos a terapia gênica, as 17 mulheres com mais de um ano de seguimento apresentaram, todas, falência ovariana, com hormônio antimülleriano indetectável.
Isso significa que o acesso real ao Casgevy pressupõe acesso prévio a um serviço de preservação de fertilidade — mais um procedimento, mais custo, mais tempo, e mais um serviço especializado que precisa existir na cidade da paciente. Também é acesso.
No Brasil: não é fila lenta, é fila não iniciada
Consulta em 4 de setembro de 2026 à base pública de petições da ANVISA — o sistema “Situação de Documentos”, que permite filtrar por CNPJ e por código de assunto.
Terapia gênica e celular não entra no cadastro de medicamentos: é Produto de Terapia Avançada, com registro separado sob a RDC 505 de 2021. Buscar “exagamglogene” na base aberta de medicamentos devolve zero, e isso não significa nada — é a base errada.
O universo completo de pedidos de registro de terapia avançada já protocolados na Agência, somando os quatro códigos de assunto que existem para isso, são 12 petições, de 9 empresas. Estas são as 11 da Classe II:
| Empresa | Situação | Processo |
|---|---|---|
| Novartis Biociências | Publicado deferimento | 25351530600202181 |
| Novartis Biociências | Publicado deferimento | 25351520073201982 |
| Novartis Biociências | Publicado deferimento | 25351030622202065 |
| PTC Farmacêutica do Brasil | Publicado deferimento | 25351475925202356 |
| Janssen-Cilag Farmacêutica | Publicado deferimento | 25351406211202136 |
| Gilead Sciences Farmacêutica do Brasil | Publicado deferimento | 25351087303202374 |
| Gilead Sciences Farmacêutica do Brasil | Publicado deferimento | 25351068316202263 |
| BioMarin Brasil Farmacêutica | Cancelado | 25351322541202331 |
| Bristol-Myers Squibb Farmacêutica | Em análise | 25351134682202641 |
| Laboratórios Ferring | Em análise do cumprimento de exigência | 25351069176202593 |
| Ultragenyx Brasil Farmacêutica | Em exigência | 25351029768202653 |
A varredura que fecha a pergunta
Nenhuma das 12 é da Vertex, detentora do Casgevy. Para eliminar a hipótese de a petição estar sob outro código de assunto, a varredura foi refeita por CNPJ.
A Vertex Farmacêutica do Brasil — identificada pelo CNPJ que consta como detentora dos registros de Trikafta, Symdeko, Orkambi e Kalydeco, todos medicamentos de fibrose cística — tem 541 petições no sistema da ANVISA. Todas foram baixadas e classificadas por assunto.
| Recorte | Petições |
|---|---|
| Total no sistema da ANVISA | 541 |
| Com assunto de Produto de Terapia Avançada | 0 |
| De terapia gênica, celular avançada ou engenharia tecidual | 0 |
| De ensaio clínico com produto de terapia avançada | 0 |
| De uso compassivo ou acesso expandido com produto de terapia avançada | 0 |
O que isso significa para o SUS
- Não existe pedido de registro do Casgevy no Brasil, e não existe nem pedido de ensaio clínico. Não é caso de “está na fila e demora”: não entrou na fila.
- As fontes em português que afirmam aprovação da ANVISA “no início de 2024” estão erradas. Agora isso se afirma por evidência positiva, não por ausência de prova.
- Sem registro, a comissão de incorporação não pode nem avaliar. O Decreto 7.646/2011, no artigo 15, exige que o pedido de incorporação ao SUS instrua o processo com o número e a validade do registro na ANVISA, além de evidência científica, avaliação econômica comparativa e o preço fixado pela câmara de regulação. O debate brasileiro sobre preço do Casgevy não está travado no preço — está travado três degraus antes.
- O que não foi verificado: se alguma petição foi protocolada por outra pessoa jurídica em nome do produto. A consulta é por CNPJ e por código de assunto, e a interface pública não devolve nome comercial. A busca textual por “exagamglogene” exigiria a Pesquisa Pública do SEI, que pede CAPTCHA e não foi usada.
E, se um dia destravar, avaliaremos no escuro
O Relatório de Recomendação nº 924 da CONITEC, de 2024, que estabelece o protocolo clínico da doença falciforme no SUS, traz a epidemiologia oficial brasileira — e o buraco dentro dela.
| Medida | Valor oficial |
|---|---|
| População com traço falciforme | estima-se 4%, com distribuição heterogênea entre as regiões |
| Recém-nascidos diagnosticados pelo Programa Nacional de Triagem Neonatal, de 2014 a 2018 | 5.428 |
| Cobertura do Teste do Pezinho na rede pública, em 2014 | mais de 84% dos nascidos vivos, em todos os estados |
| Total de pessoas com a doença no país | “Dados recentes não foram identificados, mas em 2007 estimava-se que 25.000 a 50.000 pessoas” tinham a doença — citação textual do relatório de 2024 |
O denominador que não existe
- Em 2024, a melhor estimativa oficial disponível é de 2007, e varia por um fator de dois. O país tem triagem neonatal universal com 84% de cobertura há mais de uma década e não sabe dizer o tamanho da própria população de pacientes.
- Consequência prática: se e quando o Casgevy chegar à mesa da comissão de incorporação, a avaliação de impacto orçamentário será feita sobre um denominador de 17 anos atrás, com incerteza de 100%.
- Compare com o Reino Unido. Lá foi possível publicar 1.794 elegíveis com o funil inteiro exposto — genótipo, número de crises, aptidão ao procedimento, ausência de doador — porque se sabe quem são. A lacuna de acesso, aqui, começa como lacuna de dado.
Adoção real — a seção mais fraca desta página
⚠️ Não localizei registro público independente de quantos pacientes receberam Casgevy no mundo. O que existe é comunicado da fabricante e imprensa setorial que o reproduz. A página de investidores da empresa devolveu erro de acesso nas tentativas desta apuração. Nada nesta seção foi conferido em fonte primária.
Segundo imprensa setorial citando a fabricante, até 30 de junho de 2025: 115 pacientes tiveram a primeira coleta de células e 29 foram infundidos, sendo 16 dessas infusões no segundo trimestre. A receita reportada de Casgevy em 2025 foi de US$ 115,8 milhões.
Se a receita e o preço de lista estiverem ambos corretos, a divisão dá cerca de 53 tratamentos — mesma ordem de grandeza dos 29 infundidos até meados do ano, e coerente com o que o NICE projetou de forma independente para a Inglaterra. É checagem de consistência, não confirmação.
O que se pode dizer sem depender desses números: a distância entre 115 coletas e 29 infusões, se real, é da mesma natureza que os 81% de conclusão que o NICE projeta. Entrar no processo e terminá-lo são coisas diferentes, e a diferença é medida em meses de hospital.
O que este levantamento mostra
- O gargalo declarado não é o preço — é a cama de hospital. Quando o NICE explica por que projeta adesão baixa, cita a internação longa, não o custo. Um país rico, com o produto pago e disponível, trata 23 pessoas no primeiro ano de 1.794 elegíveis.
- O preço foi fixado acima do teto que o avaliador independente calculou. US$ 1,35 a 2,05 milhões era a faixa; US$ 2,2 milhões foi o preço.
- Dentro do horizonte de um contrato de pagador, a terapia não se paga. Padrão de cuidado a US$ 45.941 por ano; saldo cumulativo de −US$ 2,11 milhões por paciente em 6 anos.
- Existe um comparador mais barato que ganha em 10.000 de 10.000 simulações — e que ataca justamente o nicho da indicação, porque dispensa a compatibilidade HLA total que define esse nicho.
- O NHS pagou um prêmio de equidade e disse isso por escrito. Aceitou incerteza maior e custo-efetividade pior do que normalmente aceita, por causa das desigualdades em saúde que atingem pessoas com doença falciforme. É honesto — e é o reconhecimento de que, pelo critério econômico puro, o produto não passava.
- A distância entre onde estão os pacientes e onde está a terapia é de ordem de grandeza. 515.000 nascimentos por ano contra 78 tratamentos anuais projetados na Inglaterra; teto custo-efetivo de US$ 4.200 na Nigéria contra preço de US$ 2,2 milhões.
- E há um custo humano que nenhuma tabela de preço mostra: 17 de 17 mulheres com mais de um ano de seguimento tiveram falência ovariana.
- No Brasil, a fila nem começou — 541 petições da Vertex, zero de terapia avançada — e o denominador não existe: a melhor estimativa oficial de quantos pacientes há no país é de 2007 e varia entre 25 mil e 50 mil.
Referências
- NICE — orientação TA1044, exagamglogene autotemcel para doença falciforme grave em pessoas de 12 anos ou mais, publicada em 26 de fevereiro de 2025. Seção 2 traz o preço de lista e o sigilo do desconto; seção 1 traz a recomendação com acesso gerenciado e os motivos do prêmio de equidade.
- NICE — relatório de impacto de recursos da TA1044. Fonte do funil de elegibilidade, dos 1.794 elegíveis, da projeção ano a ano e da justificativa da adesão baixa pela internação longa.
- NICE — orientação TA1003, exagamglogene autotemcel para beta-talassemia dependente de transfusão, publicada em 11 de setembro de 2024.
- NICE — relatório de impacto de recursos da TA1003. Fonte dos 475 elegíveis e da projeção de 14 tratamentos no primeiro ano.
- ICER — avaliação de terapias gênicas para doença falciforme, 2023. Fonte da faixa de referência de preço de US$ 1,35 a 2,05 milhões, calculada antes da aprovação e antes de qualquer preço anunciado.
- Zemplenyi A et al., 2025 — modelos de pagamento para terapias gênicas de doença falciforme no Medicaid. Fonte do custo do padrão de cuidado no Colorado, do saldo cumulativo em 6 anos e dos preços de lista americanos. Pharmacoeconomics.
- CMS — modelo de acesso a terapias celulares e gênicas: 33 estados, Distrito de Colúmbia e Porto Rico, anunciados em 15 de julho de 2025, cobrindo 84% dos beneficiários do Medicaid com doença falciforme.
- Chetlapalli K et al., 2026 — transplante haploidêntico, terapia gênica e padrão de cuidado na doença falciforme: análise de custo-efetividade. Fonte dos anos de vida ajustados por qualidade, dos custos das três estratégias, das 10.000 iterações e do teto de preço por país. Blood.
- GBD 2021 Sickle Cell Disease Collaborators, 2023 — prevalência global, regional e nacional e carga de mortalidade da doença falciforme, 2000-2021. Lancet Haematol 10(8):e585-e599.
- Kliegman M et al., 2024 — um roteiro para medicamentos genéticos acessíveis. Fonte da proposta de reduzir o custo por paciente em dez vezes. Nature.
- Hmaidan S et al., 2025 — segurança, viabilidade e desfechos de preservação de fertilidade em pacientes com doença falciforme e beta-talassemia submetidos a terapia gênica. Fonte das 17 de 17 com falência ovariana. Transplant Cell Ther.
- Decreto nº 7.646, de 21 de dezembro de 2011 — artigo 15: o pedido de incorporação ao SUS exige o número e a validade do registro na ANVISA, evidência científica, avaliação econômica comparativa e o preço fixado pela CMED.
- CONITEC — Relatório de Recomendação nº 924, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme, 2024. Fonte dos 4% com traço falciforme, dos 5.428 recém-nascidos diagnosticados de 2014 a 2018, da cobertura de 84% da triagem neonatal e da citação sobre a ausência de dados recentes.
- ANVISA — base pública de petições, sistema “Situação de Documentos”. Consultas por código de assunto (11586, 11587, 11614 e 11615) e por CNPJ da Vertex Farmacêutica do Brasil, feitas em 4 de setembro de 2026.
- ANVISA — base aberta de medicamentos, usada para identificar o CNPJ da Vertex Farmacêutica do Brasil pelos registros de Trikafta, Symdeko, Orkambi e Kalydeco.