SARMs
Metade dos produtos vendidos como SARM não contém o SARM do rótulo — e quatro dos mais populares nunca tiveram um ensaio clínico
Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.
Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.
A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.
Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.
Resumo
Levantamento dos 16 compostos que circulam como SARM, no PubMed e no ClinicalTrials.gov. O ranking de evidência é quase o inverso do ranking de vendas: o enobosarm tem 17 ensaios registrados e dois de fase 3; o RAD140, o mais discutido em fórum de treino, tem um único ensaio em toda a história, com 20 pacientes; andarina, YK-11, S-23, ACP-105, LGD-3303 e RAD-150 têm zero. Os dois ensaios de fase 3 do campo, com 651 pacientes somados, nunca foram publicados em revista — os resultados existem apenas como tabela postada no ClinicalTrials.gov, e um deles levou sete anos e meio para ser postado. Uma revisão guarda-chuva sobre drogas de desempenho em atletas saudáveis procurou estudos de SARM e não achou nenhum elegível. Do outro lado, o dano tem número: 23 casos de lesão hepática numa série australiana, 17 internações e um transplante. No Brasil, a RE 791/2021 da ANVISA proíbe venda, importação, propaganda, uso e também manipulação.
A pergunta desta página
SARM não é peptídeo. É molécula pequena, oral, que age no receptor androgênico — a mesma via da testosterona, com a promessa de agir no músculo e no osso sem agir na próstata e no couro cabeludo. Entra nesta referência porque circula nos mesmos lugares, é comprada nos mesmos sites e é empilhada nos mesmos ciclos que o resto do material daqui.
A pergunta que esta página responde é a mesma das outras páginas de fonte primária: quanta evidência existe em gente. Mas com um agravante que os peptídeos não têm — no caso dos SARMs, existe medição do que vem dentro do frasco, e ela muda a conversa inteira.
Por isso a página começa pelo frasco, e só depois fala de molécula.
Comece pelo frasco, não pela molécula
Duas análises químicas independentes compraram produtos vendidos como SARM e mediram o que havia dentro. Os números abaixo são delas, não meus.
| Achado | JAMA, 2017 — 44 produtos comprados nos EUA pela internet | Sex Med, 2024 — 13 produtos comprados na Itália pela internet |
|---|---|---|
| Continha o SARM declarado | 23 de 44 (52%) | cerca de 70% |
| Continha outro SARM, não o do rótulo | — | 23% |
| Continha outro fármaco não aprovado | 17 de 44 (39%) — ibutamoren (MK-677), GW501516 ou SR9009 | 30% — tamoxifeno, clomifeno, testosterona, epimetandienona, tadalafila |
| Não continha ativo nenhum | 4 de 44 (9%) | 1 amostra |
| Trazia substância fora do rótulo | 11 de 44 (25%) | mais de um ativo em >60% |
| Dose batia com o rótulo | 18 de 44 (41%) | teor entre 30% e 90% do declarado |
Por que isso vem antes de tudo
- Discutir o perfil de um SARM específico pressupõe que o frasco contenha aquele SARM. Na maior análise publicada, isso valeu para pouco mais da metade das amostras.
- Quem recebeu MK-677, GW501516 ou SR9009 no lugar não tomou sequer um SARM — são secretagogo de GH, agonista de PPARδ e agonista de REV-ERB. Mecanismo diferente, literatura diferente, risco diferente. A bula mental que a pessoa leu não descreve o que ela tomou.
- O problema atinge quem nem procurou SARM. Num levantamento com 170 adolescentes de academia em Atenas, 9% dos usuários de suplemento consumiam produtos contaminados com esteroides anabolizantes, pró-hormônios, SARMs e inibidores de aromatase não declarados no rótulo. 63% compraram pela internet, e nenhum havia falado com médico ou nutricionista.
- Tudo o que vem abaixo descreve moléculas. A tabela acima descreve mercadoria. As duas coisas não são a mesma, e a segunda é a que chega em casa.
Quanta evidência existe, composto a composto
A coluna Consulta traz o termo exato que produziu o número ao lado. Copie no PubMed e o resultado tem que ser o mesmo — se não for, o número aqui está velho, e o que vale é o que a base devolver a você.
No ClinicalTrials.gov a busca foi por intervenção, com os mesmos sinônimos — inclusive VK5211 para o ligandrol, sob o qual o ensaio de fratura de quadril está registrado. Sem esse sinônimo a busca devolve zero, e a página afirmaria que não existe ensaio nenhum do composto.
Levantamento feito no PubMed e no ClinicalTrials.gov em 4 de setembro de 2026. A coluna que decide não é a de artigos: é a de ensaio registrado em humano.
| Composto | Consulta no PubMed | Artigos no PubMed | Ensaios no ClinicalTrials.gov | Fase máxima atingida |
|---|---|---|---|---|
| Enobosarme ostarina · MK-2866 · GTx-024 | enobosarm OR ostarine OR "MK-2866" | 112 | 17 | Fase 3 — dois ensaios, concluídos em 2013 |
| LGD-4033 ligandrol · VK5211 | "LGD-4033" OR ligandrol OR VK5211 | 50 | 1 | Fase 2 |
| GSK2881078 | GSK2881078 | 15 | 3 | Fase 2a |
| MK-0773 Merck | "MK-0773" | 8 | 3 | Fase 2a |
| OPK-88004 OPKO | "OPK-88004" | 3 | 1 | Fase 2 |
| PF-06260414 Pfizer | "PF-06260414" | 6 | 2 | Fase 1 |
| RAD-140 testolona · vosilasarm | "RAD-140" OR RAD140 OR testolone OR vosilasarm | 43 | 1 | — |
| Andarina GTx-007 | andarine OR "GTx-007" | 43 | 0 | — |
| YK-11 | "YK-11" | 7 | 0 | — |
| S-23 | "S-23" AND "androgen receptor" | 14 | 0 | — |
| ACP-105 · LGD-3303 · RAD-150 somados | "ACP-105" OR "LGD-3303" OR "RAD-150" | 22 | 0 | — |
O que essa tabela quer dizer
- O ranking de evidência é quase o inverso do ranking de vendas. O composto com fase 3 (enobosarm) não é o que se vende; o mais vendido e mais discutido em fórum de treino, o RAD140, tem a base humana inteira em 20 pacientes oncológicas, uma vez, em 2020.
- Quatro compostos populares têm zero ensaio clínico registrado: andarina, YK-11, S-23 e o bloco ACP-105 / LGD-3303 / RAD-150. A literatura deles é roedor, cultura de célula e química analítica antidoping — não estudo em pessoa.
- A revisão sistemática que cobre o campo lista seis SARMs — LGD-4033, PF-06260414, GSK2881078, GTx-024, MK-0773 e OPK-88004 — reunindo 9 ensaios randomizados e 970 pacientes, idade média de 57,1 anos e seguimento médio de 80 dias. Note quem não está nessa lista: RAD140, andarina, YK-11 e S-23.
- A população estudada é doente e é velha. Os desfechos são caquexia oncológica, sarcopenia, fratura de quadril, DPOC, hiperplasia prostática e câncer de mama. Ninguém estudou o homem de trinta anos que treina.
- Nenhum SARM foi aprovado por nenhuma agência, em lugar nenhum, para nenhuma indicação.
O único ensaio humano do RAD140, por dentro
Vale abrir esse ensaio, porque ele é a base humana inteira do composto mais vendido do mercado paralelo — e porque o que há dentro dele quase nunca é citado.
É o NCT03088527, primeiro em humano, publicado por LoRusso e colegas em 2022. Desenho de escalonamento de dose 3+3 em mulheres na pós-menopausa com câncer de mama metastático RE+/HER2−, fortemente pré-tratadas. Os níveis de dose foram 50 mg (n=6), 100 mg (n=13) e 150 mg (n=3), uma vez ao dia.
Guarde esses três números. Quando qualquer fonte cita uma “faixa de dose em ensaio clínico” para o RAD140, é daqui que ela vem — não existe outra. E é faixa de oncologia, calibrada contra câncer metastático, não contra hipertrofia.
| Evento | Frequência |
|---|---|
| AST elevada | 59,1% |
| ALT elevada | 45,5% |
| Bilirrubina total elevada | 27,3% |
| Vômito · desidratação · perda de apetite · perda de peso | 27,3% cada |
| Eventos de grau 3 ou 4 | 16 de 22 (72,7%) — inclui elevação de AST/ALT e hipofosfatemia, 22,7% cada |
| Eventos relacionados ao tratamento | 17 de 22 (77,3%); 7 de grau 3; nenhum de grau 4 |
Como ler esse ensaio
- A única dose clínica que existe para o RAD140 é dose de oncologia. Isso resolve uma estranheza que aparece na literatura de hepatotoxicidade: a faixa “de ensaio” do RAD140 (50 a 150 mg) é maior que a faixa relatada nos casos de lesão hepática (5 a 30 mg), ao contrário do que acontece com ligandrol e enobosarm. Não é anomalia — é que, nos outros dois, existe ensaio em dose baixa para comparar. No RAD140 não existe. A tabela que põe as duas faixas lado a lado está em ajuste de dose por função hepática.
- O fígado já aparecia ali. Sob supervisão médica, por pelo menos 28 dias, quase metade das pacientes teve ALT elevada e quase três em cada cinco tiveram AST elevada. Não é achado novo do mercado paralelo: é o que o primeiro contato do composto com o corpo humano mostrou.
- “Perfil de segurança aceitável” é a conclusão dos autores, e está correta no contexto delas. Aceitável comparado a câncer de mama metastático em paciente sem outra linha de tratamento. Transportar essa frase para quem quer ganhar músculo troca o denominador inteiro do juízo.
- ⚠️ Uma divergência entre as fontes, que não resolvi. O ClinicalTrials.gov declara 20 participantes; o artigo publicado diz 22 inscritas, sendo 21 com receptor androgênico positivo. As duas fontes são legítimas e não batem. As frequências desta tabela são as do artigo, sobre 22.
Os dois únicos ensaios de fase 3 do campo
Os ensaios POWER 1 e POWER 2 testaram enobosarm contra placebo em perda muscular por câncer de pulmão, com 651 pacientes somados. São o topo da pirâmide de evidência de todos os SARMs.
E não existe artigo sobre eles. Nenhuma publicação de resultados foi indexada no PubMed nem consta vinculada aos próprios registros — a única referência ligada aos dois é o artigo de desenho. Os números abaixo foram extraídos da API v2 do ClinicalTrials.gov em 4 de setembro de 2026, que é o único lugar onde eles existem.
Os dois ensaios tinham desfechos coprimários, medidos no dia 84 como percentual de respondedores: ganho de ≥10% na potência de subida de escada para função física, e variação ≥0% (isto é, não perder) para massa magra.
| Ensaio | Desfecho coprimário | Enobosarm | Placebo |
|---|---|---|---|
| POWER 1 NCT01355484 · platina + taxano 160 vs. 161 | Função física | 29,4% (IC95% 22,4–37,1) | 24,2% (IC95% 17,8–31,6) |
| Massa magra | 41,9% (IC95% 34,1–49,9) | 30,4% (IC95% 23,4–38,2) | |
| POWER 2 NCT01355497 · platina + não-taxano 159 vs. 161 | Função física | 19,5% (IC95% 13,6–26,5) | 24,8% (IC95% 18,4–32,3) |
| Massa magra | 46,5% (IC95% 38,6–54,6) | 37,9% (IC95% 30,4–45,9) | |
| Eventos adversos graves | POWER 1 | 56 de 160 | 60 de 161 |
| POWER 2 | 109 de 165 | 113 de 165 |
Como ler esses números sem forçar a barra
- O registro não posta nenhuma análise estatística, nenhum valor de p e nenhum desfecho secundário — só as proporções e seus intervalos. Por isso esta página não afirma significância em direção alguma.
- Na função física o efeito não aparece. No POWER 1 os intervalos se sobrepõem em quase toda a extensão. No POWER 2 a estimativa da droga fica abaixo da do placebo — 19,5% contra 24,8%.
- Na massa magra a droga fica à frente nos dois, com diferenças de 11,5 e 8,6 pontos percentuais — mas os intervalos ainda se sobrepõem em ambos.
- Como os desfechos eram coprimários, uma função física que não se separa do placebo já basta para o programa não entregar o que precisava. O que veio depois é coerente com isso: nenhum pedido de aprovação para caquexia, e o enobosarm migrou para câncer de mama e, agora, para preservação de massa magra em quem usa GLP-1.
- Sem sinal de segurança contra a droga: eventos adversos graves praticamente idênticos entre os braços nos dois ensaios.
- Os resultados do POWER 2 só foram postados em 09/11/2020 — sete anos e meio depois da conclusão primária, em maio de 2013. Os do POWER 1 saíram em 03/03/2016.
- Ambos os registros declaram acordo restritivo de publicação: o patrocinador recebe cópia antecipada de qualquer comunicação de resultados com 60 dias de antecedência, tem 60 dias para pedir alterações e pode pedir mais 60 de adiamento; o investigador não apresenta dados antes da publicação pelo patrocinador ou de 18 meses após o fim do estudo.
Uma nota sobre os números destes dois ensaios
Os tamanhos de grupo citados acima para o POWER 1 e o POWER 2 são os da população avaliável — quem chegou ao fim com dado de eficácia. O registro no ClinicalTrials.gov traz os números de randomização, que são maiores: 321 no POWER 1 e 330 no POWER 2, este com 165 em cada braço.
Registro a diferença porque ela é fonte comum de confusão ao comparar uma publicação com o registro do mesmo ensaio — e porque foi conferir uma coisa contra a outra que revelou a distinção aqui.
Os números de eficácia que existem, e o tamanho deles
Fora dos POWER, três ensaios publicados sustentam quase tudo o que se afirma sobre SARM. Vale ver o que cada um mediu, em quem, e por quanto tempo.
| Ensaio | Composto | Quem | O que achou | Ressalva |
|---|---|---|---|---|
| Basaria 2013 J Gerontol A · duplo-cego, controlado por placebo | LGD-4033 | 76 homens saudáveis de 21 a 50 anos, 21 dias, 0,1 / 0,3 / 1,0 mg | Massa magra subiu de forma dose-dependente; gordura não mudou. Bem tolerado, sem evento adverso grave. PSA, hemoglobina, AST, ALT e intervalo QT sem alteração | Supressão dose-dependente de testosterona total, SHBG, HDL e triglicerídeos. FSH e testosterona livre caíram só na dose de 1,0 mg. Tudo voltou ao basal após a suspensão. Vinte e um dias não dizem nada sobre um ciclo de doze semanas |
| Dobs 2013 Lancet Oncol · fase 2, duplo-cego | Enobosarm | 159 pacientes com câncer e perda de peso, 113 dias | Massa magra total vs. basal: +1,5 kg na dose de 1 mg (p=0,0012) e +1,0 kg na de 3 mg (p=0,046). Placebo: +0,02 kg, não significativo | O desfecho é variação contra o próprio basal, não contra o placebo. E repare na não-monotonicidade: a dose maior rendeu menos que a menor |
| Palmieri 2024 Lancet Oncol · fase 2, aberto, 35 centros, 9 países | Enobosarm | 136 randomizadas / 102 avaliáveis, câncer de mama avançado RE+/HER2−/RA+ | Benefício clínico em 24 semanas: 32% na dose de 9 mg e 29% na de 18 mg | Estudo aberto, sem braço de placebo. Eventos adversos grau 3–4 relacionados em 8% e 16% — o mais frequente foi elevação de transaminases. As duas fases 3 seguintes foram encerradas precocemente, com 52 e 5 pacientes recrutados |
A revisão que procurou efeito em gente saudável e não achou
É o achado mais desconfortável desta página, e não é meu: é de uma revisão guarda-chuva de revisões sistemáticas e metanálises sobre sete intervenções farmacológicas de melhora de desempenho em atletas saudáveis.
Os SARMs estavam no protocolo de busca. O resultado: nenhum estudo sobre SARMs atendeu aos critérios de inclusão. Não houve o que revisar.
Na mesma revisão, a creatina é a única intervenção com benefício de desempenho considerado seguro nas doses controladas — e ela custa uma fração, é legal e tem bula.
Ou seja: para a pessoa saudável que treina, que é quem compra, o nível de evidência agregada de SARM é zero revisão sistemática elegível. Enquanto isso, o dano já tem série de casos, hospitalização e um transplante — a seção seguinte.
Segurança: o que está documentado
Ao contrário da eficácia, o dano tem número, tem série de casos e tem desfecho duro.
| Levantamento | O que encontrou |
|---|---|
| Revisão sistemática de segurança Vignali 2023 · 33 estudos, 2.136 pacientes, 1.447 expostos | Nos relatos de caso: 15 de lesão hepática induzida por fármaco (DILI), 1 ruptura de tendão de Aquiles, 1 rabdomiólise, 1 elevação reversível de enzimas. Nos ensaios clínicos, elevação de ALT em média 7,1% dos expostos, e 2 casos de rabdomiólise com GSK2881078. Conclusão dos autores: o uso recreativo deve ser fortemente desencorajado |
| Revisão sistemática do abuso por atletas Vasireddi 2025 · 72 artigos, 2003 a 2022 | Prevalência estimada de 1% a 3%. Treze relatos descrevendo 15 casos: todos homens, mediana de 32 anos, todos por via oral, curso médio de 8 semanas. Cinco pacientes negaram explicitamente uso de droga ilícita — acreditavam estar dentro da lei. Doses relatadas muito acima das estudadas clinicamente |
| Série de lesão hepática Nash 2024 · 9 hospitais terciários na Austrália, 2017–2023 | 23 casos envolvendo 40 fármacos, 14 deles SARMs. 22 de 23 homens, mediana de 30 anos. Latência mediana de 58 dias. 17 de 23 internados. Tempo mediano até a bioquímica normalizar: 175 dias. Um transplante hepático. Nenhuma morte |
| Padrão da lesão Mohideen 2023 · revisão dedicada | Colestase branda: icterícia de instalação insidiosa, hiperbilirrubinemia marcada e elevação apenas leve de enzimas, com pouca lesão de ducto, inflamação ou necrose. Não há tratamento estabelecido — a melhora costuma vir da suspensão |
No Brasil, isto é proibido — e a proibição inclui a manipulação
Esta é a diferença prática entre a página de SARM e quase todas as outras deste site. Aqui não existe zona cinzenta de importação pessoal ou de fórmula manipulada: existe uma resolução que fecha as duas portas.
| Jurisdição | Situação | Detalhe verificado |
|---|---|---|
| Brasil (ANVISA) | Proibido | A Resolução (RE) 791/2021, publicada em 23/02/2021, proibiu a comercialização, a distribuição, a fabricação, a importação, a manipulação, a propaganda e o uso de produtos com SARM, e determinou apreensão e inutilização. Aplica-se a produto industrializado e manipulado, importado e nacional, em meio físico e remoto. A própria ANVISA registra que não há medicamento com SARM registrado na Agência |
| Antidopagem (WADA / ABCD) | Proibido em todo tempo | Lista Proibida 2026, em vigor desde 01/01/2026, seção S1.2 — Outros Agentes Anabolizantes. O texto nomeia andarina, enobosarm (ostarina), LGD-4033 (ligandrol), RAD140, S-23 e YK-11. Categoria S1 vale dentro e fora de competição |
| Estados Unidos (FDA) | Não aprovado; ilegal como suplemento | A FDA registra que SARMs não podem ser legalmente comercializados nos EUA nem como suplemento alimentar nem como medicamento. Riscos que a Agência lista: infarto e AVC, psicose e alucinações, distúrbio de sono, disfunção sexual, lesão hepática e falência hepática aguda, infertilidade, aborto espontâneo e atrofia testicular |
Os três que são vendidos como SARM e não são
Os três apareceram como substituto ou adulterante nos produtos analisados pelo JAMA. Nenhum age no receptor androgênico.
| Composto | O que é de fato | Literatura no PubMed |
|---|---|---|
| MK-677 · ibutamoren | Secretagogo de GH — agonista do receptor de grelina. Não toca no receptor androgênico | Literatura clínica própria, antiga, de outro campo |
| GW501516 · cardarine | Agonista de PPARδ | 372 artigos |
| SR9009 · stenabolic | Agonista de REV-ERB | 1 artigo que traz os dois termos |
O que esta página não fez
- Não traz dose, meia-vida, protocolo de ciclo nem esquema de reconstituição, por decisão. É a segunda página do site sem posologia, depois da de itens de tarja. Descrever um esquema de uso para substância cuja manipulação a ANVISA proibiu seria escrever o que não deve ser seguido.
- Não conferi o inteiro teor da RE 791/2021. O número, a data e o alcance da medida vieram da página oficial da ANVISA; a lista nominal de produtos apreendidos, que circula em fontes secundárias, não foi conferida no texto da resolução.
- Não há teste formal de hipótese nos POWER. O registro não posta valor de p. Toda a leitura desta página se limita a comparar estimativas e intervalos.
- Não busquei os desfechos secundários dos POWER porque eles não existem publicamente: o desenho previa durabilidade no dia 147 e análise combinada de sobrevida, e nada disso foi postado.
- Não conferi a interrupção do desenvolvimento do GW501516 por carcinogenicidade em roedores, que é amplamente citada no campo. Não busquei a fonte primária, e por isso não é afirmação desta página.
- Não há dado brasileiro de prevalência de uso. A estimativa de 1% a 3% é de atletas, em literatura internacional.
O que sobra depois de tudo
- O topo da pirâmide de evidência deste campo nunca passou por revisão por pares. Os dois únicos ensaios de fase 3 de qualquer SARM, 651 pacientes somados, existem só como tabela em registro público — sem artigo, sem valor de p, sem desfecho secundário, e um deles com sete anos e meio de atraso na postagem. Quando se diz que falta evidência sobre SARM, não é só ausência de estudo: é evidência produzida e não publicada.
- Onde há número de eficácia, ele é modesto e estranho — +1,5 kg de massa magra em 113 dias no melhor caso, com a dose maior rendendo menos que a menor.
- A ausência de evidência em pessoa saudável é formal, não impressionista. Uma revisão guarda-chuva procurou e não achou um único estudo elegível.
- O risco, ao contrário, tem número: 15 casos de DILI numa revisão, 23 numa série australiana com 17 internações e um transplante, 58 dias de latência mediana, 175 dias até o fígado normalizar.
- E o risco maior nem é farmacológico. Metade dos produtos não contém o que diz conter. Antes de escolher a molécula, há um problema de mercadoria a resolver — e ele não se resolve lendo sobre a molécula.
Referências
- Van Wagoner RM et al., 2017 — análise química de 44 produtos vendidos pela internet como SARM. JAMA 318(20):2004-2010. É a fonte da tabela que abre esta página.
- Gaudiano MC et al., 2024 — produtos ilegais com SARM comprados na Itália: análise por espectrometria de massas e RMN quantitativa. Sex Med 12(2):qfae018.
- Tsarouhas K et al., 2018 — suplementos contaminados com substâncias dopantes em atletas adolescentes de Atenas. Food Chem Toxicol 115:447-450.
- Wen J et al., 2024 — revisão sistemática dos SARMs sobre desempenho físico: 9 ensaios randomizados, 970 pacientes, seis compostos. Clin Endocrinol 102(1):3-27.
- Vignali JD et al., 2023 — revisão sistemática de segurança dos SARMs em adultos saudáveis, com implicações para uso recreativo. J Xenobiot 13(2):218-236.
- Vasireddi N et al., 2025 — revisão sistemática do abuso de SARMs por atletas. Am J Sports Med 53(4):999-1009.
- Warrier AA et al., 2023 — revisão guarda-chuva de revisões sistemáticas sobre drogas de melhora de desempenho em atletas saudáveis. Nenhum estudo de SARM atendeu aos critérios de inclusão. Sports Health 16(5):695-705.
- Nash E et al., 2024 — lesão hepática por SARMs, esteroides anabolizantes e suplementos de musculação na Austrália: 23 casos, um transplante. Aliment Pharmacol Ther 59(8):953-961.
- Mohideen H et al., 2023 — SARMs como toxina hepática emergente: padrão colestático da lesão. J Clin Transl Hepatol 11(1):188-196.
- Basaria S et al., 2013 — segurança, farmacocinética e efeitos do LGD-4033 em homens jovens saudáveis, 21 dias. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 68(1):87-95.
- Dobs AS et al., 2013 — efeito do enobosarm sobre perda muscular e função física em pacientes com câncer: ensaio de fase 2. Lancet Oncol 14(4):335-345.
- Palmieri C et al., 2024 — atividade e segurança do enobosarm em câncer de mama avançado RA+/RE+/HER2−: fase 2. Lancet Oncol 25(3):317-325.
- LoRusso P et al., 2022 — estudo de fase 1, primeiro em humano, do RAD140 em cancer de mama metastatico RE+/HER2-. Fonte dos niveis de dose e das frequencias de eventos adversos desta pagina. Clin Breast Cancer 22(1):67-77.
- Crawford J et al., 2016 — desenho e justificativa do programa de fase 3 do enobosarm (ensaios POWER). É a única publicação vinculada aos dois registros. Curr Oncol Rep 18(6):37.
- ClinicalTrials.gov, registro NCT01355484 (POWER 1) — resultados dos desfechos coprimários, extraídos da API v2 em 4 de setembro de 2026.
- ClinicalTrials.gov, registro NCT01355497 (POWER 2) — resultados dos desfechos coprimários, postados em 9 de novembro de 2020.
- ANVISA — 'Medida proíbe comercialização de produtos que contenham SARM', notícia oficial que descreve a Resolução (RE) 791/2021, publicada em 23 de fevereiro de 2021.
- Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem — Código Mundial Antidopagem, Lista Proibida 2026, em vigor desde 1º de janeiro de 2026. Seção S1.2, página 6.
- FDA — 'FDA Warns of Use of Selective Androgen Receptor Modulators (SARMs) Among Teens, Young Adults', página datada de 26 de abril de 2023.